quarta-feira, 27 de maio de 2009

Micropolítica da Paranóia


As câmeras captam tudo: “para onde vai a nossa carga tributária”? Realmente essa é uma pergunta muito perigosa. Em primeiro lugar, todos nós sabemos da relação inversa que existe entre impostos e manutenção dos preços, assim como entre juros e inflação, de modo amplo, como somar e subtrair ou dividir e multiplicar. Trata-se de operações econômicas outrora experimentadas no Brasil. Os preços tendem a subir exorbitantemente sem a premissa dos impostos, da mesma maneira que a moeda inflaciona o mercado com juros baixos. Quem dera se fosse simples assim, como a imprensa nos mostra: há 60% de impostos no preço de um pote de manteiga, então pagaríamos apenas 40% desse pote se não houvesse impostos. O primeiro impacto da redução dos impostos seria cair, lógico, os preços, muito além até da pura subtração dos impostos no preço das mercadorias. Alcança-se um valor suficiente para impactar na concorrência, ou seja, só os grandes proprietários poderiam sustentar preços tão baixos, o que quebra os pequenos produtores e, num segundo momento, livres dos impostos e da concorrência, os preços elevam-se para os empresários que resistiram ao mercado. Linha descendente, depois, curva vertiginosamente ascendente dos preços. Por isso as pessoas se perguntam: por que mesmo pagando mais impostos, os preços ainda assim são mais baixos que em governos precedentes? Já ouvimos o argumento de alguns cidadãos que dizem: “há pouco tempo atrás, o salário era cem reais, mas cinco quilos de arroz era quinze, e que hoje o salário é mais de quatrocentos reais, enquanto cinco quilos de arroz custam sete reais”. Em segundo lugar, pagar sessenta por cento de nossa renda com impostos tem outra contrapartida nos ‘serviços públicos’, que acabam concorrendo com a rede particular de ensino e os planos de saúde. Claro que a classe média trata os impostos com escárnio, eles podem pagar qualquer preço pelas melhores marcas, utilizam serviços médicos, educacionais e de segurança privados. Pobres e ricos pagam impostos, mas grande parcela da população pobre é a que utiliza os serviços públicos. Um cidadão se priva de pagar consultas, remédios e internações, com as políticas do SUS – certamente não é um resort hospitalar sírio-libanês, mas oferece cuidados elementares de saúde. A população vive dos serviços educacionais mantidos com impostos municipais, estaduais e federais - ultimamente universidades e escolas técnicas federais ampliaram sua rede. Certamente, há necessidade de transparência e ética nos gastos públicos, mas vêem-se financiamentos para casa própria, com sua origem no FGTS; a redução dos preços dos automóveis, eletrodomésticos através do IPI; sabe-se que o CPMF retorna como fundo de participação dos municípios. Para onde vai a carga tributária? Embora a imagem econômica midiática seja caótica, a obscura aparição dos impostos se esclarece porque contribui para regular os preços e oferecer serviços públicos de atendimento, que são as contrapartidas inquestionáveis do impacto dos impostos na economia.

Resta a fórmula mágica, solução politicamente correta, panacéia que sempre se formula: a educação. A educação é o elixir do desenvolvimento – caminho para a prosperidade. Nem se questiona o reducionismo pedagógico e a impressionante responsabilidade da instituição escolar, ou seja, os sujeitos se matam, seqüestram, estupram e, nós, professores é que temos a responsabilidade de conduzir a sociedade à prosperidade? A que preço? Trata-se de uma guerra intestina que corre nos interstícios da sociedade, onde pais matam filhos, filhos matam pais[1], alunos esmurram professores, professores espancam alunos, haja câmeras... Não há dúvida, o problema é educacional, mas não é somente nas escolas que esse processo deve se desenvolver. Família, policiais, médicos, repórteres, juristas, todos devem contribuir com sua parte: a escola está ilhada, entretanto, televisionada vinte e quatro horas por dia. Um líder autoritário na Coréia do Norte quer provocar uma intimidação nuclear global, evidente que se trata de um resíduo ativo dos longínquos cinquenta anos de guerra fria, período de corrida militar entre EUA e URSS, tendo como base armas como as nucleares. Em um diagnóstico simplista, o problema norte-coreano, entretanto, vai ser o seu pouco investimento em educação, afinal, segundo os mass media só há altos investimentos em instituições militares. Que sigam outro modelo, afinal, a Europa, berço clássico do saber, foi palco de aguerridos conflitos em todo século vinte. Educação sim, a diferença passa por aí, mas o que se questiona é por que não investir em setores de alta tecnologia, de modo que instituições de pesquisa, universidades, forças armadas, capital privado e público, nacional e internacional se desenvolvam em cadeia? Privilegiam-se e criam-se intelectuais e especialistas, com efeito, cada vez mais adequados ao mercado, à imagem liberal do capital humano? É certo que a educação é um fio-condutor capaz de perpassar, por exemplo, toda a produção de tecnologia de petróleo e aeroespacial, como se percebe no CENPES/UFRJ e no ITA, no Brasil. Diferentemente de um paranóico que desenvolve tecnologia restritamente para a guerra. Investimento em bomba é de uma natureza completamente diferente de investimento tecnológico.

A guerra civil e global, portanto, passam pelos impostos e pelo investimento tributário em serviços de segurança para a população. Se a educação é a solução para rompantes nucleares, dos EUA, da antiga URRSS ao seu filho caçula, a Coréia do Norte, ela soluciona também os problemas cariocas e paulistas do crime generalizado. Mas a solução que os setores mais privilegiados da sociedade encontrou foi se monitorar através de câmeras[2]. À esteira de um espaço cibernético, telemático e informacional consolidado no país, uma ‘Paixão por Segurança’ ou uma ‘Micropolítica da Paranóia’ contagiam condomínios inteiros, invadem as metrópoles, onde todos se armam, mas há nas mãos câmeras fotográficas e filmadoras. Enquanto os crimes tornam-se acontecimentos ideais ou imagéticos, as prisões caem em ruínas – ‘política do caos’ que se serve de imagens erodidas impressas em um ambiente arruinado, erodido, corrompido, devastado. Os criminosos acabam sendo fabricados pela ótica da imprensa com atributos técnicos anatômicos, patológicos, jurídicos em uma massa indiferenciada onde se qualificam milicianos e traficantes misturados com pequenos Édipos e Brutus em miniaturas[3], cotidianos e passionais. No fundo, encontram-se cercas, muros, grades muito bem televisionadas e eletrocutáveis. Mas como os educadores se sentiriam se o boom da videografia se atenuasse? Câmeras, máquinas fotográficas, celulares estão em todas as mãos. Afinal esses instrumentos deveriam ser considerados armas[4], em suas devidas proporções, assim como uma bomba nuclear. Capturar imagens e publicar na web – policiar também, moralizar sempre numa reinvenção constante de crimes. De fato, a imprensa é cada vez mais policial e tem se esforçado com sucesso para estar no local do crime antes de sua ocorrência. Interrogatório com câmeras escondidas produz veredictos, verdades, micro-tribunais caóticos que se proliferam. A imagem torna-se inquestionável. Na expectativa de sua invenção ou geração, a imagem se torna o ápice grandioso da revelação da verdade, não da informação. Ninguém informa nada: dizem-se verdades. Império da racionalidade da imagem (a se construir ou já construída) assim os mass media educam na fronteira entre ricos e pobres.

Saint Laurent, Van Gogh, Dom Quixote, Escadinha, instituições democráticas, ética e transparência, juros e impostos, panacéia da educação, anões do orçamento, mensalões são imagens construídas e desconstruídas pelas ilhas de montagem dos estúdios de algumas emissoras brasileiras. Não precisa ser um analista de discurso treinado no Collège de France para identificar o eurocentrismo cultural[5] e o economicismo norte-americano[6] ovacionados por esses centros de comunicação localizados, geralmente, em São Paulo e Rio de Janeiro – o Brasil é tão mais amplo que essa ponte aérea, mas... Gritem, gritem incansavelmente... Que os juros e os impostos caiam! Com efeito, é o mesmo que berrar que os preços e a inflação subam! Portanto, observa-se um midiático mecanismo de desinformação, que organiza a arena econômica do caos e arma os cidadãos, com a popularidade das câmeras portáteis, contra a criminalidade. A guerra civil é televisionada. Em nome da natureza, cerquem as franjas das favelas cariocas! Onde uns muros caem, outros são erigidos. Fronteiras reais marcam nosso espaço urbano, privatizado e altamente policiado... em suas câmeras frias, televisiona-se tudo. Conferindo as cercas elétricas dos seus muros, o servo paranóico quer, pelo menos, filmar a sua própria pilhagem, alimentar seu medo[7] e reproduzir a tele-pedagogia do enclausuramento, que encerra o espaço público e se serve de generalizado apartheid!

Notas:

[1] Amplamente divulgados pela imprensa os casos, de Eloá, 15 anos, que foi morta com dois tiros, um deles na cabeça, disparados pelo ex-namorado Lindemberg Alves; o complexo enredo do crime realizado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, assassinos confessos dos pais de Suzane Von Richthofen; o parricida, ex-seminarista Gil Rugai de 25 anos, acusado de matar o pai e a madrasta em 2004; o caso de Isabella Nardoni, no colo, o seu pai (Alexandre Nardoni) subiu na cama, deixando no lençol marcas dos chinelos que usava. Aproximou-se da janela, introduziu Isabella no orifício da tela e soltou-a de uma altura de 20 metros.
[2] Michel Foucault criou, em “Vigiar e Punir”, a partir de Jeremy Bentham, uma das imagens arquiteturais do poder de vigiar, próprio do século XVIII/XIX organizado para ser difundido nos meios institucionais disciplinares, enquanto, no século XXI, com o auxílio da televigilância, semelhante a imagem do Sinóptico de Zygmunt Bauman descrito no seu livro “Globalização: Consequências Humanas”.
[3] Brutus é o líder romano que, ao matar seus filhos, manifesta o gesto de adotar seus súditos, como em “Homo Sacer” de Giorgio Agamben, assim como Édipo-rei matou seu pai e se casou com sua mãe, mito trágico grego escrito por Sófocles.
[4] Paul Virilio analisou as relações entre a tecnologia de visão e as guerras mundiais em “Guerra e Cinema” bem como definiu as estratégias que se estabelecem entre os instrumentos de investigação policial e jurídica com os meios de comunicação em “Máquina de Visão”.
[5] Eurocentrismo é o cerne duro do debate antropológico presente entre teóricos pós-coloniais como Stuart Hall, Homi K. Bhabha, W. Mignolo.
[6] A respeito da decadência do modelo econômico norte-americano, destaca-se “O Declínio do Poder Americano” de Immanuel Wallerstein.
[7] “Fobópole”, escrito por Marcelo Lopes de Souza, analisa o medo generalizado em detrimento da militarização urbana no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Petróleo e Imperium Capitalista


Sabe-se que o Imperialismo Capitalista nem sempre escondeu sua fusão contraditória entre ‘a política do Estado e do Império’ e os ‘processos moleculares de acumulação do capital no espaço e no tempo’, revelando múltiplas relações entre política e economia[1]. Analisa-se, pois, com acuidade, a ‘política do petróleo’ como um paradigma da economia imperialista pós-guerra, ou seja, a busca paranóica norte-americana por controlar reservas de petróleo no mundo, o que sinaliza uma economia orientada tanto para a guerra quanto para promoção de uma mercadoria singular que também cumpra, no final do século XX, um papel semelhante ao do ouro no imperialismo ibérico do século XVI.

A passagem do controle inglês no Oriente Médio para os americanos é relativamente recente, marco da descolonização nas décadas de 1950-60. Esta passagem não se sucedeu sem resistências e conflitos, o primeiro boicote do petróleo pela OPEP e em seguida a grande elevação dos preços, em 1973, tornou cada vez mais ilusória a manutenção de um domínio indireto e distante dos representantes. Controlar o Oriente Médio é controlar a torneira de petróleo e a economia global. Os EUA estimularam o Iraque na guerra contra o Irã, com efeito, foi possível verificar um crescimento do poder iraquiano, que lhe incitou até a Guerra do Golfo. Mantém-se a geopolítica da guerra contra o Iraque, até torná-los clientes americanos. Atualmente os Estados Unidos receberam intensa oposição no Iraque, devido a associação estabelecida entre guerra e petróleo, por isso suas empresas foram excluídas desses campos de petróleo.

Um plano de implantação da democracia no Iraque favorável aos Estados Unidos envolve algumas estratégias de configuração regional do poder político-econômico no Oriente Médio para a hegemonia global yankee[2]: [a] derrubar Chávez e Saddam; [b] armar Sauditas e Judeus; [c] passar os conflitos do Iraque para o Irã; [d] impor presenças militares na Ásia Central (domínio do Mar Cáspio); [e] deste modo, os EUA dominariam as maiores reservas do mundo e a economia global nos próximos 50 anos[3].

Este é apenas um panorama global pelo qual o petróleo se enquadrou na economia imperial do século XX. Afora os sentimentos patriotas e as afecções populistas, nacionalmente centrados, que rondaram a origem da Petrobras, então não resta dúvida que uma investigação na estatal vai interferir nas suas atividades pelo mundo. A Petrobras não representa só os interesses do Brasil, há capital privado e externo aplicado na empresa. O discurso neoliberal parece muito simplista e não observou atentamente a este aspecto internacional que envolve uma multinacional deste porte com os efeitos estonteantes da crise global atual; eles estão focalizados objetivamente nos resultados das próximas eleições, afinal os opositores limitaram-se aos interesses locais ou internos referidos a Petrobras, strictu sensu, enunciado claramente pelo mote do patriotismo[4].

É preciso ressaltar a função do petróleo na economia política mundial, assim, promover no país um inquérito sobre as atividades da Petrobrás é no mínimo um ‘paradoxo político’ irrefutável, ao mesmo tempo em que se percebem, no circuito interno da política brasileira, efeitos tendenciosos dessas ‘irregularidades econômicas’. Referir-se, em primeiro lugar, a um ‘paradoxo político’ irrefutável é destacar o posicionamento de patriotas (governista) e privatistas (oposicionista) nesses inquéritos. Óbvio que, tal como nos informa Leitão, “a Petrobras nunca foi colocada no programa de privatização, e vendê-la seria um erro gigantesco porque se criaria um monstro”, o que não justifica muita coisa, afinal quem está sendo questionado como privatista são os próprios opositores, não se discute se a empresa vai ou não ser privatizada e porque não foi; monstro por mostro, o capitalismo é tão monstruoso como o neoliberalismo, que encontra principalmente nas leis do mercado e das privatizações a sua articulação com o capital. Ou seja, uma comissão de inquérito sobre a Petrobras só beneficia a oposição, mais uma vez, Leitão tem razão quando escreveu que “a Petrobras não sairá de lá [CPI] desmoralizada, não perderá reputação”, lógico, a inspeção não se direciona a ela, afinal “não é ela que está sendo analisada, mas sim a atual administração [Lula], por seus supostos erros e omissões”. Resulta daí um paradoxo, em que a oposição segue em significativa desvantagem: se a situação é julgada por se vangloriar de um patriotismo relativo a empresa, onde se destaca a auto-suficiência, o pré-sal e os seus altos lucros, então a oposição acabou se levando ao julgamento que a responsabiliza pelas privatizações que fez no país. Assim, encontrar irregularidades numa estatal desse porte justifica a pauta de privatizações tucana, além de por em cheque o regime adotado pelo governo, por maiores que sejam os êxitos da empresa. Enfim, em segundo lugar, trata-se de irregularidades econômicas, listadas nos jornais: patrocínios a sindicatos, dúvidas sobre a distribuição de royalties, impostos, operação do projeto Águas profundas. De um lado, questiona-se a oposição: se, talvez, essas irregularidades não são pontuais demais para necessitarem de uma 'maquinaria jurídica' tal como ma CPI, às vésperas da eleição? Contudo, devem-se investigar tais ilicitudes, mas será que há outros procedimentos jurídicos mais adequados que uma CPI para inquirir esses indícios? O legislativo deve investigar o executivo, mas em que medida essas irregularidades, tão periféricas (vide a dimensão comercial e industrial que a Petrobras assumiu pelo mundo no último governo) mereceriam necessariamente destaque em uma CPI?

A banalização das CPIs acontece por causa do hábito das oposições as utilizarem como recurso indiscriminado e midiatizado, onde só se percebem excesso e banalização da punição[5].
Fica evidente que a atual oposição busca imputar uma ordem econômica ao Estado, portanto, “ao poder público nunca intervirá na ordem econômica a não ser na forma da lei”[6], através deste ‘teatro da superexposição’, com a CPI da Petrobras, a direita acabou delatando uma tendência à incorporação da economia a centros de decisão cada vez mais próximos da administração e do Estado, isto é, a condenação histórica do capitalismo.

Condenar o capitalismo é, portanto, interferir diretamente nos interesses neoliberais. Através de leis, a CPI é um instrumento capaz de limitar o poder do Estado e atenuar a aniquilação do capitalismo. No Imperium capitalista, um campo de forças articula Estado e capital, entretanto, nessa trama de poder acionada pela Petrobras, uma instabilidade se expõe: os interesses capitalistas neoliberais vêm sendo miniaturizados em detrimento da potência de Estado. A inquisição da Petrobras indica a dissimetria entre estes interesses, midiatizada em tempo real na paisagem alterada do Imperialismo Capitalista atual, propaga-se velozmente esse Theatrum da guerra, deitando culpados e inocentes por todos os lados.

Notas:
[1] Acera das possíveis articulações entre Estado e capital na lógica do Império: “O Anti-Édipo” e “Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia” (Deleuze e Guattari); “O Longo Século XX” (Giovanni Arrighi); “O Novo Imperialismo” (David Harvey).
[2]Estas estratégias estão contidas no texto Tudo sobre o Petróleo escrito por David Harvey, em seu livro O Novo Imperialismo.
[3] Em geopolítica, trata-se da constituição da Heartland, Hadolf Mackinder foi seu grande idealizador. Neste caso, não se trata apenas de controlar o petróleo, mas em tornar os EUA uma ‘forte cabeça’ eurasiana e tomar uma forte posição estratégica.
[4] Olhar sobre o passado, sobre a origem varguista desse patriotismo: “O que não dá para entender são os apelos patrióticos contra a CPI. [...] a Petrobras está no imaginário nacional como nenhuma outra empresa por ter tido berço esplêndido: nasceu de uma mobilização popular e de uma teimosia do país contra prognósticos em nosso subsolo”. Míriam Leitão, em sue texto “Leis das CPIs”, em O Globo, 21/05/2009, p.18. [5] Sobre os excessos dos mecanismos punitivos em “Vigiar e Punir” e em “A Verdade e as Formas Jurídicas” de Michel Foucault.
[6] Próprio de um Estado de Direito, trata-se de compreender o enforcement of law como o conjunto de instrumentos postos em prática para dar a esse ato de interdição uma realidade social e política, com base nas explicações de Michel Foucault em seu livro “Nascimento da Biopolítica”.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Trucagem Ilusionista de Guerra


O Brasil entra no inverno de 2009, às vésperas das candidaturas, um anos antes das eleições majoritárias, quase cumprindo os dois mandatos de Lula da Silva no governo. As câmeras e os holofotes se acendem. Época trágica de teatralização política que se aproxima junto com as comissões parlamentares de inquérito. A bola da vez é a propaganda do petróleo: BR. Inicia-se o espetáculo jurídico midiático mais aterrorizante que já se viu na genealogia das guerras. Tudo isto nos leva a questionar sobre o paradoxo da censura entre governo e mídia que se revela a partir de uma ‘perversão’ das leis, que não tem como não deixar de beneficiar as redes de comunicação. A imprensa não tem a liberdade de promover anúncios falsos, mas possui legalmente o poder de mentir e vetar o que não lhes provier. Recentemente, mobilizaram-se em campanha, jornalistas, apresentadores e atores repudiando uma suposta tentativa de censura dos meios de comunicação por ações governamentais petistas. Se o monopólio da violência está nas mãos do Estado, a censura exercida pelos diretores de redes de informação torna-se cada vez mais legítima. O caráter publicitário e policial da imprensa se cristaliza nos seus atos de trucagem e censura. Os responsáveis pelos canais de TV possuem a tarefa de julgar, comprovado pelo seu poder destruidor de regimes políticos. Questiona-se, pois, de que modo algumas técnicas são acionadas pelos mass media capazes de constituí-los como a única instituição capaz de funcionar fora do controle democrático? Em suma, quais estratégias e táticas ocultam do grande público toda e qualquer crítica dirigida contra os meios de comunicação? Busca-se, então, questionar de que modo uma distorção da realidade, inerente à produção da informação, maximiza-se através de técnicas de interpretação e trucagem? De que maneira desinformação, simulação, ilusionismo e efeito furtivo podem revelar um complexo conjunto de táticas e estratégias de apercepção?

[1] Desinformação e interpretação – a partir de uma manobra estratégica que transforma o campo de batalha em um campo de percepção, a informação passa a depender cada vez mais de fatores de apreciação e de interpretação à distância. A informação não é mais fixada numa fotografia, ela permite a interpretação do passado e do futuro. A fotografia de reconhecimento aéreo, por exemplo, já depende de uma leitura que possa ser capturada por um ato racionalizado de interpretação, na mesma esteira, a endoscopia e o scanner permitirão uma colagem instrumental e a evidência de órgãos escondidos. Tornar visível o invisível, numa experiência que examina exaustivamente uma determinada imagem atribuindo-lhe sentido ao que parece, em princípio, ser um caos de significações ou que avalia uma paisagem inimiga através da análise das destruições realizadas em elementos camuflados. O desenvolvimento simultâneo da visibilidade e invisibilidade paralelo à origem dessas armas invisíveis herdeiras dos radares, do sonar, das câmeras de alta definição, dos satélites de observação objetivando encontrar tudo além do horizonte, mas principalmente o que existe ou o que não existe. Ficção estratégica da desinformação amplamente utilizada na Alemanha nazista[1].

[2] Simulação – o desembarque de uma tropa militar passa a se assemelhar com um imenso set de filmagem – a paisagem é recoberta por instalações fictícias, construções com papelão, borracha e cabos. Toda uma miríade de técnicos e criadores imaginativos é convocada para a realização desse trabalho de desinformação visual[2]. Outra ordenação do tempo, portanto, as imagens e os signos surgem em telas de controle, ‘telas de simulação’ de uma guerra que parece um cinema permanente, uma TV ligada ininterruptamente. O poder do diretor ou do militar não é imaginar apenas, mas prever, simular e memorizar simulações: as imagens podem ser desprovidas de tensões dramáticas, mas as montagens, associando-se disparatadamente, num ritmo vibrante de um grande acontecimento, a comentários específicos que se projetam sobre o espectador.

[3] Ilusionismo – teatralização trágica e antiga que se reproduz no plágio do mundo visível. As Repúblicas, as democracias não carecem de encantos, elas se tornam acúmulos heterogêneos de ‘ilusão de ótica’. A coisa que se descreve acaba sendo mais importante que o real, na medida em que a imprensa realiza um mercado paralelo da informação. Afirma-se que o realismo é uma ilusão. Desde o século XIX, o ilusionista inventa os objetos sintéticos (bi ou trimórficos) fazendo com que o espectador não veja tudo e que se instale num ambiente de síntese, onde o observador acaba por não ver nada. Transfere-se a ilusão para a realidade do campo de batalha: industrialização do não-olhar. Tende-se a colocar sobre o invisível a máscara do visível através de técnicas em que o nosso cegamento ou incapacidade visual fica no centro da comunicação. O século XX foi então não o da imagem como ótica, mas como ilusão de ótica.

[4] Efeito Furtivo – antecipa-se o desaparecimento da imagem e, com efeito, a destruição de sua representação[3]. Se aparentemente entrávamos, no pós-guerra, na era da ‘simulação generalizada’ das missões militares, com todo o ‘teatro de operação’ midiatizado pela tela de TV e cinema, realmente estamos na era da ‘dissimulação generalizada’. Enganar sobre a duração da trajetória e tornar secreta a sua imagem, camuflar os “vetores de liberação de explosivos”, isto é, os aviões, os navios, os foguetes... a trajetografia como nova disciplina balística[4].

Não basta apenas que a lei se perverta e possibilite aos mass media a irrecusável omissão, veto e censura a quaisquer rumores sociais que devam ser desaprovados. É certo que nessa política de guerra a estratégia da velocidade é capaz de aniquilar a representação de uma imagem. Estratégia furtiva que se desenvolve com base na interpretação e na simulação dos fatos. A prática da desinformação promove o pânico e o terror na sociedade capitalista cada vez mais mergulhada no ‘espetáculo’, visível sob a perspectiva do italiano Debord. Táticas inscritas na história ocidental da política nazi-fascista. É que numa perseguição visual torna-se necessário abolir a distância (por meio dos transportes e das armas), afinal aqueles que escapam utilizam menos uma arma de destruição do que uma arma de distanciamento, situando-os no local apartado da pura distância, já que a ‘arte da guerra’ visionária e ilusionista busca aproximar o ator do público... toda uma trama de técnicas foram desenvolvidas por meio de uma trucagem que promovem a destruição, aniquilação e o desaparecimento da imagem através de ilusionismo e interpretação. Técnicas que, portanto, levam-nos a mais eficaz forma de defesa, ou seja, ao silêncio e à cegueira[5]. Mundo da desinformação maquinado por táticas que não só precipitam as formas pelas quais os media inscreveram todo um modo novo de silenciamento e censura das imagens, como nos induz, por meio dessas mesmas táticas, a seguir o caminho das sombras[6],
na apercepção dessa trajetória ganha com mais celeridade, afastando-se das armas de propaganda, caso precisemos fugir do alvo e do zoom-zoom-zoom de tantas câmeras que tanto furtam imagens, distorcendo sua natureza. Em tempos de transformação política, para se manter no poder, é preciso se valer da estética da aparição, mas para uma boa defesa, estratégias de desaparição conduzem em ritmo adequado as propagações e criam uma ilusão de que estamos no silêncio e no interior da Câmera Escura - ação.


Notas:
[1]Paul Virilio ressaltou, em seu livro Guerra e Cinema, que Joseph Goebbels (ministro de propaganda de Hitler) era um mestre da desinformação ou da propagação de rumores contraditórios, na época do holocausto, os judeus eram capturados por uma implosão da informação que os impedia de compreender o que realmente acontecia, eles acabaram não acreditando em seu próprio extermínio, a transparência das fontes e documentos fotográficos desvalorizavam as informações verídicas.
[2] Estúdios célebres (como o Shepperton em Londres) consagravam-se pela fabricação de falsos blindados e navios de desembarque.
[3] A destruição da representação é mais bem compreendida por um exemplo constante na obra de Paul Virilio, sobre os caças F117 americanos que ilustram os avanços tecnológicos da guerra, típico avião fantasma cuja habilidade não é ser captado pelos sensores dos radares, uma vez que na nova guerra óptica eletrônica o que é visto já é destruído, então, mais vale ser destruído antes de ser visto. Trata-se de uma força de penetração capaz de desafiar os raios de ondas radioelétricas dos radares e de cegar as telas de controle. Esse avião-fantasma emite armadilhas para modificar o campo de percepção do adversário e é um objeto de síntese que antecipa o desaparecimento de sua própria imagem, a destruição de sua representação. O ‘furtivo’ restitui a opacidade do distanciamento, o cegamento da velocidade, ao colocar a máscara do visível sobre o invisível. O F117 é apto às camuflagens em relação direta com a rápida identificação de alvos, alvos que já não são simplesmente mísseis falsos ou verdadeiros, mas verdadeiros ou falsos sinais de radar, verossímeis ou inverossímeis imagens, acústicas, óticas ou térmicas.
[4] Referir-se a uma ‘auto-correção’ da informação no seu processo de propagação é, neste sentido, o mesmo que a antecipação própria de um feedback, entendido como resultado imediato de uma tecnologia onde os acontecimentos se desenrolam ao mesmo tempo em que os dados recebidos são organizados, obedecendo sua distorção relativa e contingente: o poder de resposta repressiva depende do poder de antecipação.
[5] Como Canetti descreveu, em Massa e Poder, os perigos do ato de se calar, aquele que se cala não se entrega. Do mesmo modo que Paul Virilio se serviu, em Arte do Motor, das técnicas aeroespaciais dos aviões-caça que precipitavam sua sombra, promoviam a sua invisibilidade, antes da sua inserção no espaço eletromagnético varrido por sensores e radares.
[6] Susan Willis analisou, em seu texto “Somente o Sombra Sabe”, no livro “Evidências do Real”, a existência do monte Weather e do Raven Rock, sedes secretas subterrâneas do governo paralelo norte-americano, esconderijos criados na época da Guerra Fria, como locais para conservar arquivos e abrigar líderes governistas, se caso ocorressem ataques nucleares; também do Minder – sistemas de radar leves e portáteis disponíveis projetados para serem instalados nos tetos dos carros; mas especialmente do mito bororo, a mágica do morcego, uma brincadeira de indígenas brasileiros, que se baseia na emissão sonora capaz de detectar a presença de objetos.

Explosão Midiática Transpolítica


Investigam-se os mass media como uma “tecnologia de poder” difundida ao longo das guerras mundiais, a partir de um duplo mecanismo político-jurídico, ‘transpolítico’. Por um lado, os meios de comunicação se beneficiam de certa ‘depravação’ das leis democráticas. A televisão e a imprensa não são livres para anunciar notícias falsas, mas a legislação lhe concede outro poder, o de mentir por omissão, assim, censurar ou vetar o que não lhes convém. Por outro lado, a censura governamental é tida como inadmissível, mas a censura exercida pelos diretores de redes é legítima. Os responsáveis pelos canais de TV possuem a tarefa de julgar, atribuindo-se o poder de recusa aos dirigentes de um governo. Golpe informacional, portanto, a imprensa provou que é capaz de destruir regimes e de traí-los, de improvisar outros no seu lugar. No Brasil, a ‘operação caras pintadas’ e o ‘Fora Collor’, no final da década de 1990, explicita o poder de um golpe informacional, tanto para eleger como para destituir um presidente eleito por impeachment. Este é o ‘quarto poder’ denunciado por Paul Virilio, como a única instituição capaz de funcionar fora do controle democrático eficaz, por tornar desconhecida do grande público toda crítica dirigida contra ele.

Como este poder midiático altamente destrutivo se estabeleceu no Ocidente? Em que medida os campos de batalha tornaram-se campos de percepção, cuja teatralização é captada por uma ‘câmera’, ora como um típico motor, ora vista como uma arma, tendo a propaganda um dos seus maiores expoentes, fazendo dos líderes políticos verdadeiros cineastas, em suma, superstars?
A principal finalidade da guerra é produzir um espetáculo, busca-se menos abater o inimigo do que cativá-lo. A guerra subsiste na representação e as armas são mistificações psicológicas, ou seja, além de ser instrumento de destruição, as armas são instrumentos de percepção: estimuladores que provocam fenômenos químicos e neurológicos sobre os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso central, para afetar a própria identificação dos objetos percebidos. Os campos de batalha vão se tornando assim campos de percepção[1]. Na Segunda Guerra, as salas de comando e os gabinetes de guerra não se localizam mais próximos aos campos de batalha, mas em Berlim ou Londres. Dentro de sua especificidade, não é forçoso afirmar que uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), televisionada pelo próprio legislativo em tempo real, propagada e editada pelos mass media, promove um efeito ‘teatral’ da guerra espetáculo em plena capital do Brasil. De modo amplo, o ‘teatro de operação’ está privado agora da extensão espacial real, portanto esses núcleos de interação reúnem uma infinidade de informações e mensagens, retransmitidas no sentido apropriado para o universo que lhe é próprio.

A espetacularização da política e seus efeitos de oposição aos governos instrumentalizam-se pelas objetivas das câmeras, arma e motor de um jogo de imagens. A câmera não serve só para produzir imagens, trata-se mais de manipular e falsear informações. Cria-se o onírico, a ‘alucinação visual’. A diferença principal entre o ‘motor-câmera’ e a fotografia está no ponto de vista móvel e não na estagnação do foco – produz-se a confusão com velocidades veiculares. Todo equipamento de filmagem se torna móvel, assim a velocidade surge tanto como grandeza primitiva da imagem quanto como origem da profundidade. Automobilidade cinética do ‘motor-câmera’, que funciona como se tudo não se passasse de um problema de velocidade. A ação dessas armas é subversiva, pois uma forma se dissolve diante de nossos olhos e logo surge outra que se reconstitui[2]. Era transpolítica em que o poder real se divide entre a logística das armas e a logística dos sons e imagens, entre gabinetes de guerra e escritórios de propaganda. Mussolini dizia que a propaganda era sua melhor arma. Assim, faz sentido questionar por que é tão interessante para os neoliberais interpelarem os patrocínios, custos em propaganda, realizados pela Petrobras em uma ‘CPI superexposta’[3], manobra altamente fascistizante. A propaganda torna-se um objeto analítico de mão dupla, reflexiva, pois os governistas se sentem vítimas de uma propaganda política da oposição com a CPI da Petrobras, enquanto os tucanos buscam inquirir as propagandas da multinacional. Todo o conjunto dessa ação demonstra movimentos que se submetem a tarefa de uma direção com caráter de uma ‘revelação’: ação de um deus que revela verdades aos homens, que por si mesmos são incapazes de serem descobertas. Não tardou por alastrar-se pela Europa Ocidental e União Soviética uma espécie de comandantes militares, revolucionários, líderes, Führer que buscavam exercer sobre as massas o mesmo carisma que os cineastas e atores, na medida em que o ‘star-system’ se esforça para canalizar e aproximar a estrela do público[4]. A partir da década de 1990 essa tecnologia de poder, que une propaganda e política, desenvolve-se no Brasil e transformam os parlamentares em superstars, conhecidos pelo país, em períodos de CPI e de eleição. Paradoxo de um mecanismo de poder que se volta contra o Estado, que derruba legisladores, mas, ao contrário, sob um bombardeio de propagandas pode insuflá-los de carisma.
Notas:
[1] Os ingleses, por volta de 1930, abandonaram os meios convencionais de defesa para se dedicar à pesquisa da percepção: início da cibernética, do radar, da goniometria, da microfotografia, do rádio – das telecomunicações. Trata-se da expansão do campo de percepção dos conflitos em que a radiolocalização (o radar) é um instrumento que informa a um observador afastado a presença dos objetos, com o aperfeiçoamento das imagens eletrônicas (imagem radar).
[2] No final do século XIX, um arsenal de armas foi experimentado, em 1874, o francês Jules Janssen criou o seu revólver astronômico para tirar fotografias em série; mais tarde foi Étienne-Jules Marey aperfeiçoou o fuzil cronofotográfico que focalizava e fotografava objetos em movimento; em diversas combinações, balões equipados com um telégrafo cartográfico aéreo sobrevoavam e observavam campos de batalhas; os russos já utilizavam, desde 1904, refletores na defesa noturna, acoplados às câmeras-metralhadoras.
[3] A CPI em sua superexposição midiática é dinâmica como um filme, ela não é estática como uma fotografia. ‘Filme de guerra’, portanto, ‘filme de propaganda’ como produto histórico determinado. Nos últimos 150 anos, houve uma decadência da visão direta, o campo de tiro transformou-se em campo de filmagem, o campo de batalha tornou-se uma locação de cinema fora do alcance dos civis, mas acima de tudo trata-se de um olhar sobre o que se move.
[4] Por um lado, foi assim que Hitler, com seu extraordinário conhecimento técnico nos campos de direção teatral, trucagem, mecanismos de alçapão e cenas giratórias, acima de tudo, os usos possíveis de iluminação e refletores, além de ter sido um grande criador de logotipos, preocupava-se mais com a eficácia psicológica de uma arma do que com sua força operacional, aumentava o seu poder de sugestão hipnótica, com auxílio de cineastas e diretores de espetáculo, buscando transformar o povo alemão numa massa de visionários involuntários. Hitler declarou em 1938 que as massas necessitavam de ilusão, mas uma ilusão fora dos cinemas e teatros, uma ilusão no lado sério da vida. Por outro lado, atentou-se Susan Willis na introdução de seu livro Evidências do Real que “George Bush é certamente o presidente digital. De fato, toda a sua carreira parece ter sido filmada diante de um fundo azul, crucial para a produção digital das imagens de um super-herói em ação”.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Theatrum Videpolítico da Guerra


Os neoliberais obtiveram um ótimo exercício tecnológico a partir de 1970, com a crise do petróleo, houve o desenvolvimento de uma típica máquina de guerra que tanto se refere a uma ‘máquina de visão’ quanto a uma ‘máquina genética’. Deleuze e Guattari, em Mil Platôs afirmaram a natureza nômade de uma máquina de guerra e sua exterioridade ao aparelho de Estado, demonstrando sempre a sua oposição a ele. Destacam-se as metamorfoses de uma máquina de guerra estatal em complexos industriais-militares e bandos, grupelhos, minorias. Mas, agora se discute as metamorfoses de outra máquina de guerra, a liberal. Manuel Castells sinalizou, em sua Sociedade em Rede, a eficiência dos neoliberais em promover uma transmissão global de informação em rede: o ‘informacionalismo’. Entretanto, Paul Virilio identificou o setor informacional como uma ‘máquina de visão e velocidade’.
A máquina de visão é historicamente policial e tem sua origem ligada aos aparelhos jurídicos de investigação, toda sorte de técnicas datiloscópicas, picturiais, arquiteturais, fotográficas, videográficas, cinematográficas, informáticas capturadas à distância. A invenção francesa revolucionária que tornou o olho um símbolo da sua polícia, o espião, para que o espaço público fosse iluminado como o espaço privado. Parece ser daí que resulta todo um discurso policial-neoliberal recente, que envolve os enunciados ‘transparência’ e ‘ética’ ao investigar serviços de inteligência, fraudes e corrupções. Entre os séculos XVIII-XIX, Jeremy Bentham organizou a trama disciplinar das institucionais através do ver-sem-ser-visto em um panóptico arquitetural, enquanto nos séculos XX-XXI o sinóptico é uma nova industrialização da visão, descrito por Zygmunt Bauman, operacionalizado por uma televigilância que se sobrepõe em um ciberespaço. Caráter policial da máquina de visão, mas também de propaganda. Nessa perspectiva, na Segunda Guerra, Hitler e Goebbels (ministro da Propaganda e ‘patrono’ do cinema) criaram os precursores do intervalo comercial. Foi Hitler quem disse que a função da artilharia e da infantaria será assumida no futuro pela propaganda. Em uma guerra, trata-se de apropriar bens materiais e territórios, mas, sobretudo de captar a imaterialidade e de manipular a percepção. Um agenciamento que envolve não mais a vigilância policial, mas acopla em uma só companhia a imagem, tática e roteiro, ou seja, coordenar cinema, exército e propaganda.

O espaço público se retrai a medida mesmo em que ele se torna midiatizado. Os conflitos entre políticos, empresários, sindicatos, movimentos sociais são negociados através dos jornais e televisão, García Canclini denunciou a ‘videopolítica’ como uma tecnoburocratização dos regimes neoliberais em detrimento da dissolução da participação popular. De todo modo, a política é um teatro, conforme Thomas Morus, mas muitas vezes se representa no cadalfo, proposição que exprime perfeitamente a essência do jogo político que envolve as Comissões Parlamentares de Inquérito. Entre estatistas e liberais, petistas e tucanos, a CPI muda de forma, porque a máquina de visão está com os neoliberais. Rumo às eleições, pelo andar da carruagem, maio de 2009, deduz-se que não só um investimento sobre a Petrobras, mas qualquer comissão de investigação estabelecida por liberais opositores no Brasil possui fins propagandísticos. Evidencia-se uma guerra em que o adversário vai, seja ele liberal ou trabalhista, se sucumbir a uma explosão da informação.

Desse modo, é preciso, primeiramente, promover um cálculo de forças e verificar os efeitos de poder de uma investigação que conta com a engenhosidade de uma ‘máquina de visão’. Percebem-se ‘atos cômicos’, de um lado, a propaganda como um efeito positivo que pode causar em qualquer CPI, porque essa propaganda pode surpreender a oposição e acabar saindo como um ‘tiro pela culatra’, ou seja, encontrando ou não o delito, a investigação midiatizada pode causar uma comoção da população em defesa do investigado, que se refere atualmente a todo o complexo industrial-militar petroquímico brasileiro, ou seja, a propaganda como ‘arma de teatro’. Os ‘atos trágicos’ se perfilam, de outro lado, caso a infração seja definida, cria-se um cálculo negativo para o governo, gerando uma propaganda positiva para a oposição, mas somente a partir da detecção do crime, no caso, dos delitos encontrados na Petrobras, isto é, a força de polícia se aplica como lei para capturar um ‘bode expiatório’ transladando-se por todo um ‘teatro de operação’. Se os neoliberais iniciam uma inquisição deste tipo é porque partem de um ato ilícito, indício de uma ilegalidade, através de um aparato judiciário e não vão faltar gritos em favor do Estado de Direito! Videopolítica que se dirige, portanto, para a direita, onde resta toda uma morosidade do tempo jurídico e inquisitorial, mas à esquerda é preciso criar um motor capaz de produzir mais e mais velocidade na veiculação de informação.

O modelo da máquina de guerra é problemático e em se tratando de uma máquina informacional, de visão, deve-se partir de uma tríplice ‘estratégia da informação’: publicidade, propaganda e probabilidade – visibilidade, difusão e estatística – alinhadas numa retroalimentação altamente auto-corretiva, capturando e alterando a opinião pública, sucessivamente e incansavelmente, a partir de elementos (dados, fatos, comentários) que induzam a população contra o adversário. Triplicidade do jogo estratégico: tornar público e visível o ato, propagar e difundir a opinião, calcular os efeitos positivos e negativos num espaço bifásico, por conseguinte, avaliar os resultados e iniciar indefinidamente a estratégia até saturar os efeitos que se persegue numa das fases. Nesse modelo de ‘guerra’, trata-se menos de se defender ou atacar do que condicionar os reflexos e interferir no comportamento da massa, assim se apropriar da dimensão imaterial e perceptiva dos sujeitos (o alvo da informação). O bombardeio pela propaganda orienta a opinião pública, que assim vai qualificar os atos de defesas e de ataques, ora como trágicos, ora como cômicos, numa guerra midiática.
Trocando em miúdos, os eleitores já estão familiarizados com esse ‘efeito auto-corretivo’ dessas manifestações inquisitoriais, desde que a CPI se generalizou como instrumento de oposições a governos brasileiros, uma tragédia que se irrompe e sempre ‘vira pizza’, comédia! ‘Guerrilha passional’, portanto, subjetiva, comportamental. Seja qual for a ilegalidade, os neoliberais instituem uma investigação pública e procuram limitar o poder do Estado, utilizando-se da máquina informacional cria-se um estigma, um rosto, um bode expiatório. Votam-se nos neoliberais porque um candidato tem em segredo uma ex-mulher. Votam-se nos neoliberais por causa do mensalão. Votam-se nos neoliberais por causa do caos aéreo. Propaganda de natureza extrínseca, sempre derivada de um erro, uma pena, de um crime. Votam-se nos neoliberais por causa de impeachments. Assim seria possível pensar que os eleitores passem para a oposição tucana, não por concordarem com a livre concorrência, não por estarem em consenso com as leis do mercado – votam nos neoliberais através dessa ‘ilusão midiática’ que resultou da relação entre a criminalização da razão do Estado e da sua pressuposição em relação aos mass media. Eis, pois, de que modo uma ‘máquina de guerra’ ilusionista é acionada pela junção de mecanismos jurídicos com dispositivos midiáticos. Afinal a guerra acabará quando for alterado o comportamento de um terceiro incluído, o povo, que pune ou absolve, justiça seja feita, tendendo para um ou outro lado da balança, no momento certo: na urna. Neste sentido, inverte-se o aforismo de Clausewitz, a política é a continuação da guerra por outros meios...

sábado, 16 de maio de 2009

Neoliberalismo Ecológico


Aquecimento global, efeito estufa, queimadas, redução da emissão de poluentes, privatização e escassez da água são emitidos pelos mass media e, em muitos casos, desastrosamente são descritos. Um perigo reside nessa abordagem ambiental, ou seja, suas íntimas relações que possui com o regime neoliberal de governabilidade. Discutem-se, então, as relações de forças que resultam da assimilação da perspectiva ecológica pelo neoliberalismo. Das múltiplas junções possíveis entre (neo)liberalismo e ecologia, destacam-se os efeitos geopolíticos que re-significam o ‘direito de propriedade’ e a extensão do ‘mercado mundial’ por meio do desenvolvimento da indústria biotecnológica. Sabe-se que existem liberalismos e liberalismos, entretanto, todos eles se consolidam como Estados mínimos, isto é, não só desenvolvem mecanismos e dispositivos que limitam a razão de Estado, mas ampliam as dimensões do mercado, tendo a dimensão planetária como limite. Através da dimensão biológica ou ecológica, strictu sensu, o mercado mundial se espraia e se subdivide em mercado de carbono, mercado da fotossíntese, mercado genético, entre outros.
A proposição ambiental desenvolvida pelo neoliberalismo estabelece uma tríplice estratégia que aciona uma guerra explícita, desde que a guerra se caracterize, conforme Clausewitz, pela imposição de nossa vontade sobre o adversário. Uma Guerra ou Geopolítica da Natureza é acionada na medida em que três estratégias tornam-se visíveis: [1] a etnobiopirataria, [2] os latifúndios genéticos; [3] divisão ecológica e territorial do trabalho.

[1] Parte de um complexo industrial-científico de caráter estratégico – um projeto estratégico nacional dos EUA[1] – a realização de programas associados à conservação da natureza, ao desenvolvimento econômico e ao descobrimento de drogas medicinais. Resta ainda que empresas financiam investigações e podem patentear os resultados das pesquisas. Os EUA devem garantir a segurança para se apressarem, por um lado, as legislações ao livre acesso aos recursos genéticos, por outro lado, criar leis que assegurem barreiras ao acesso às informações – propriedade privada, patente. Poderíamos designar, por isso, biopirataria a obtenção de informações genéticas – acesso ao gernoplasma – operando como coleta ao azar, sem critério prévio, aleatório. O que acontece e outra manobra estratégica, a etnobiopirataria que significa a colheita de informações sistematizadas por comunidades (camponesas, indígenas e afrodescendentes), isto é, não são apenas as plantas que se levam, mas informações e conhecimentos são apropriados de um povo. As empresas são unidades jurídicas que reivindicam direitos de propriedades sobre conhecimentos de outros povos, de modo tal que, por exemplo, transnacionais farmacêuticas podem desarmar os sistemas locais de saúde para convertê-los em consumidores obrigatórios de produtos farmacêuticos comerciais; [2] Regiões tropicais são as mais ricas em diversidade biológica, mas as grandes corporações do ramo da biotecnologia localizam-se em regiões frias e temperadas (EUA, Japão, Europa do Norte). Deste modo, trata-se de uma situação geopolítica sob novos matizes que deve ser enfrentado por países africanos e asiáticos, mas, sobretudo pelos países andino-amazônicos: Peru, Equador, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Brasil, Suriname. Alerta-se com essas propostas de unidades de conservação ambiental, principalmente, em áreas com elevada diversidade biológica e de grande diversidade cultural como na Amazônia, por envolver recursos provenientes dos países hegemônicos que protegem essas áreas como ‘reservas de valor’ para o futuro – um ‘latifúndio genético’. Num latifúndio genético como o da Amazônia não se pode esconder os diversos interesses sobre os recursos estratégicos existentes: ouro, níquel, zinco, cobre, petróleo, urânio e diversos recursos genéticos. Esta região, por isso, tornou-se uma região própria para a geração de conflitos e tem criado adjetivos para a natureza como área protegidas, parques nacionais, reservas florestais, etc. Acontece que interesses para conservação acabam limitando direitos territoriais nativos;
[3] Esse mecanismo acionado pelo ‘mercado ambiental neoliberal’ corresponde a uma divisão territorial do trabalho pautada nessas premissas ecológicas. Os países industrializados mantêm seu desenvolvimento com certos atenuantes ecológicos, mas esse modelo não pode se estender para outras regiões e povos. Tornando-se ‘lixeira’, ao limpar os rejeitos do Primeiro Mundo, estão populações que vivem pobremente em grandes extensões de suas terras que se transformam em unidades de conservação ambiental (latifúndios genéticos). Apesar dos posicionamentos díspares, grandes corporações obtêm apoio das elites dominantes dos próprios países em desenvolvimento que atraem para seus territórios aquilo que os países desenvolvidos não desejam mais. Observa-se a transferência da indústria de papel e celulose para o Terceiro Mundo, por exemplo, países tropicais em especial, que são indústrias altamente poluidoras – todo o latifúndio monocultor de espécies celulósicas ou de carvão vegetal que existem no Amapá, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. O ‘deserto verde’ como uma mancha residual que expressa o empobrecimento genético e provoca o desequilíbrio hidrológico, causam-se danos, enfim, ao meio ambiente na medida em que diminui a diversidade biológica por causa da expansão da agricultura de exportação.

No Brasil, com a economia do açúcar e do café, percebem-se as raízes históricas do liberalismo como modelo agroexportador, Mantega em sua “Economia Política Brasileira” descreveu o modelo econômico liberal ligado a oligarquia agrária comprometida com a burguesia comercial e ao imperialismo financeiro, defendendo o livre trânsito de capitais e mercadorias, estrangeiros e brasileiros. A versão atual do liberalismo no Brasil, sob a alcunha de neoliberalismo é representada pela oposição ao governo de Lula. Recentemente, em uma coluna do Globo, Fernando Henrique exprimiu sua preocupação com o aquecimento global. Enquanto a ‘guerra da natureza’ se instaura por conflitos que resultam da apropriação da biodiversidade e da cultura dos povos; os neoliberais instauram uma comissão de inquérito contra a administração da Petrobrás. Ato ilícito: manobra fiscal que evitou pagamento de impostos. Iniciada a exploração do pré-sal, talvez, o maior símbolo do nacional-desenvolvimentismo foi posto em cheque. Tendo a ‘pirataria biológica’ como prática, neoliberais não podem se vangloriar de sua trágica fábrica de desastres éticos e ecológicos. O petróleo então se tornou a moeda da vez para a campanha 2010, simplesmente assim os tucanos se apropriaram do velho lema trabalhista “o petróleo é nosso” e do trunfo central do discurso petista.

Notas:
[1] Trata-se de um programa que visa o controle da biodiversidade em escala mundial, através de universidades e empresas dos EUA. O programa International Cooperative Biodiversity Group (ICBG) conta com o apoio do Banco Mundial e é coordenado pelo Technical Assesment Group (TAG) formado por três grupos estatais dos EUA: Serviço de Agricultura Estrangeira (FAS), a Fundação Nacional de Ciências (NSF) e o Instituto de Saúde (NIH), ou seja, a tríade Agricultura Ciência e Saúde. O texto de Porto-Gonçalves, a Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização, contribuiu para as análises estratégicas apresentadas como prática do neoliberalismo estadunidense.

domingo, 22 de março de 2009

Fascínio Fascista [Pop-politik]

Há diversas formas de Estados: totalitários, ditatoriais, soviéticos, do clássico modelo Keynesiano às diversas práticas intervencionistas. Afora todas as atrocidades cometidas pelo Führer ou pelo Duce, Fascismo e Nazismo somente são conceitos que prefiguram imagens de líderes de Estados europeus no período entre guerras, entretanto essas imagens distorcem qualquer concepção coerente do 'Estado forte' e, mais, por sua violência, atualmente, parece até um crime pronunciá-las, mesmo com toda a acuidade em que se estudam essas formas de poder [em conferências e simpósios, nas salas de aula e nos laboratórios de pesquisa das universidades do mundo inteiro]. Por que, então, utilizar o 'fascismo', expressão tão polêmica e violenta na história mundial, como escopo geopolítico? Primeiramente, faz-se apenas aqui uma assimilação desse período específico da história, articulado com a atualidade política mundial. Em segundo lugar, questiona-se o comportamento das nações que escolhem e se identificam com seus líderes, em suma, acolhendo as intervenções estatais na economia. Afinal, a pergunta que tanto incomodou estrategistas, cientistas e psicólogos europeus não foi como a população européia desejou o nazi-fascismo? Nosso interesse é estritamente geopolítico, assim, não há desejo algum em ocultar essa fase da história mundial, a despeito de um discurso panfletário e politicamente correto. Compreendidas essas ressalvas, é certo que, para os capitalistas ou neoliberais, um perigo constante ameaça as 'instituições democráticas', toda vez que se constata a ampliação do avanço e do acesso das forças populares e minoritárias na política, em geral, estatisticamente comprovado pelo processo eleitoral. Perigo para quem? Resta saber. Plebiscitos, eleições e referendos acontecem com freqüência para desvendar a opinião popular e eleger os seus líderes. Um líder possui no mínimo duas características: de um lado, um estatuto jurídico definido por certos atributos, por exemplo, compartilhar a identidade nacional, possuir uma idade mínima, bons antecedentes, ser filiado a um partido político, isto é, toda uma trama de etapas cumpridas que dê a qualquer indivíduo o direito de se candidatar a um cargo público. De outro lado, um líder não se baseia apenas em seu estatuto jurídico, mas também no seu aspecto carismático, exatamente aquilo que possibilita que seguidores ou fiéis se aglomerem ao redor dos seus líderes, que respeitem as normas do grupo e se tornem reconhecidos entre si por determinadas asceses, práticas ascéticas, um ascetismo singular – um estilo de vida que deve ser compartilhado por todos os membros de um grupo que circundam um führer, um líder. Duplicidade do líder, corpo duplo do déspota, jurídico e carismático. Entretanto, é por seu carisma que um líder se torna ‘força de lei’, ou seja, sua fala se transforma em uma lei, aquilo que se diz deve servir como uma lei que deva ser cumprida, ‘lei viva’ que Agamben chama de nomos empsychos, em seu livro "Estado de Exceção". É certo que os regimes carismáticos possuem significações proféticas e que o estatuto jurídico se caracteriza por sua aparência sacerdotal. Caso aceitemos a diferença entre o profeta (como o indivíduo que fala a lei) e o sacerdote (aquele que interpreta a escrita, a lei). Trata-se do aspecto divino do poder, o contato do déspota com Deus de dois modos: num caso, é o próprio Deus que fala aos ouvidos do profeta, noutro caso, a renúncia e a interpretação dos textos sagrados, da lei, contemplam a exegese sacerdotal. Interroga-se, pois, como o poder carismático se relaciona com políticas fascistas.

Trata-se do nazifascismo, que foi desejado pelos povos e planejado pelas autoridades européias no primeiro quarto do século XX, em seus laboratórios ditatoriais alemães e italianos, eclodindo com as guerras mundiais. Destacam-se diversas análises científicas a respeito das origens do totalitarismo de Hannah Arendt; a concepção de dominação carismática de Max Weber; o pólo paranóico e gregário dos micro-Édipos ou micro-fascismos em Deleuze e Guattari; o lado místico do poder numa ‘captura mágica’ como Georges Dumézil compreendeu o Estado indo-europeu. Originalmente, entretanto, no imaginário ocidental ou no self europeu, observa-se uma demarché na Grécia Clássica que o governo dos homens acabou se estruturando em torno de uma verdadeira técnica, de acordo com Michel Foucault em seu livro "A Hermenêutica do Sujeito". Foi assim que Alcibíades aproximou-se de Sócrates, despreocupado com o lado jurídico de sua tentativa de governar Atenas. O que ele queria do filósofo era saber como governar os outros, já que era um eupátrida, possuía idade suficiente para governar, etc. Sócrates recomendava o cuidado de si a Alcibíades, afinal só cuida dos outros, aquele que cuida de si. Neste caso o que se percebe é uma ausência de técnica para governar em Alcibíades, mas que no filósofo grego é especificada como uma “técnica de si” e de uma “técnica de governar os outros”, técnicas que no pensamento foucaultiano designa ‘governamentalidade’. De outro modo, nas tribos primitivas sul-americanas, todavia, em seu livro "Arqueologia da Violência", Pierre Clastres definiu o papel estratégico das migrações xamânicas, que fazia toda uma população fugir, migrar do campo de ação dos poderes excessivos e tirânicos do chefe da tribo, ávido por guerra. Ressalta-se o campo de forças na política que resulta do estatuto místico, carismático do poder do xamã, opondo-se ao poder do chefe da tribo, pautado na linhagem, no aspecto ‘jurídico’ e legítimo do poder. Hipnotizando multidões, seja na Grécia, seja na Europa do Reich, ou ainda seja nas tribos sul-americanas, o 'fascínio fascista' [metáfora ainda inadequada] reside apenas nessas análises sobre o lado carismático e mágico das ações políticas.

A América Latina, atualmente, tornou-se locus preferencial dessa prática paternalista e protecionista de poder, cuja potência do Estado busca abarcar todas as relações sociais. Paternalismo das populações carentes e protecionismo dos fluxos de mercadorias, regulamentadas geralmente por projetos sociais e embargos econômicos. Na ótica da imprensa e dos argumentos opositores, Lula, Chávez, Morales, Noriega e Correa desfilam ‘tendências populistas de Estado, muitas vezes intitulando-se socialistas. Contudo, a versão norte-americana de Barack Obama é a mais fascinante detectada até agora pelas objetivas da mídia. Obama é um negro de pele, árabe na assinatura, com isso a representação minoritária atua na política norte-americana, após uma sucessão de presidentes que viviam a paranóia de guerra. O Estado volta a interferir na economia, por isso que estatizar torna-se, aos poucos, uma palavra de ordem. A população norte-americana vê-se desprotegida, desempregada, endividada, encurralada num cerco imposto pelas forças privadas e liberais. Os fundamentalismos e as ‘ondas tribalistas’ estacionam a onde o Estado enfraquece, assim nessas relações criam-se guetos, micro-fascismos (numa acepção deleuzeana). Muitas etnias, bandos e abandonados pelo regime capitalista, cada vez mais excludente. A maior potência do planeta mostra seu lado obscuro: a população que vive sob o medo, a insegurança; as crianças se armam nas escolas, elas muito cedo se tornam homicidas; as forças armadas recrutam jovens que vão parar em frontes de guerra; a polícia multa os cidadãos que não agem na norma e espancam gangues que brigam e disputam territórios. As diásporas espacializam a multiplicidade de costumes e hábitos de uma nação migrante. De repente, todo o consenso eleitoral destinou a Obama a responsabilidade de planejar uma política plural, atribuindo-lhe praticamente dons mágicos. Mesmo tarde, pelo menos em relação aos populismos que proliferam na América Latina, os Estados Unidos fabricaram seu recente líder. Talvez essa seja uma tradução dos sonhos de uma superpotência que se vê no meio de uma crise econômica complexa e intensa, ao mesmo tempo em que a indústria bélica pressiona a democracia através de uma violência irracional contra a diferença, marcando sua intolerância destrutiva. Deste modo, sem ter por onde fugir, a potência das massas fortalece a política.

sábado, 21 de março de 2009

Crash & Onicrisis


Uma crise como a que vivemos atualmente só não seria previsível se não estivéssemos atentos ao rumo do neoliberalismo norte-americano. A crise do petróleo, na década de setenta, deixou marcas profundas nas relações políticas e comerciais. A prática do capitalismo acabou se tornando economia de guerra e financeira. O império da bomba e do banco. Um país pode chegar aos excessos da indústria da guerra e do mercado financeiro, regulando a sua economia. Fabricar armas e adquirir financiamento nortearam toda uma população – vítimas da guerra e do crédito. Trata-se de dois modos improdutivos de se acumular capital. De um lado, Vietnam, Coréia do Norte, Iraque, Irã, Afeganistão e seus diversos bombardeios. De outro, Banco Mundial, BIRD, FMI e a ciranda financeira. A devastação foi ampla para a economia doméstica norte-americana, aspirando ser superpotência hegemônica após a queda do muro de Berlim e o enfraquecimento do socialismo no leste europeu. Da falência das empresas data.com (o embuste dos dólares fictícios em 1999) aos papéis podres nas mãos dos bancos em 2008 (o mercado imobiliário hipotecado), percebe-se um câncer nos interstícios da economia norte-americana, espraiando por todos os lados, do interior da ‘supernação’ às fronteiras globais. De outra forma, eclodem guerras contra o comunismo, contra o islamismo, guerra às drogas.

Houve, em meados do século XX, uma passagem do Imperialismo Colonial (Britânico e Francês) para o Império norte-americano. Após a Revolução Industrial inglesa, a necessidade de expandir mercados, conquistar territórios e explorar a mão-de-obra marcaram a colonização no século XIX na Ásia e na África. Com a expansão do modelo industrial, as colônias européias tornaram-se também industrializadas. Ao mesmo tempo, houve uma passagem de regime, afinal, antes predominava o modelo disciplinar com o Imperialismo europeu, com os Estados Unidos o regime da sociedade de controle prevalece. O pensamento francês da segunda metade do século XX descreveu e analisou essa passagem das disciplinas ao controle. Movimentos insurgentes e de resistência se rebelaram contra esse sistema disciplinar generalizado. O fordismo foi alvo de conflitos em muitas partes do mundo. No pós-guerra, entretanto, o processo de descolonização no Terceiro Mundo e, simultaneamente, o início da Guerra Fria deslocou o eixo da ordem mundial de norte-sul (Imperialismo) para leste-oeste (superpotências). O socialismo russo e o capitalismo norte-americano movimentaram uma corrida nuclear sem precedentes, armaram-se singularmente e guerrearam em pontos estratégicos.

Com o fim do socialismo, a superpotência norte-americana pensou-se finalmente hegemônica: fim da história, fim do Estado. Essa transição deixou marcas muito significativas, principalmente, no Oriente Médio, com a criação do Estado de Israel, território que era povoado pelo povo palestino. A indústria da guerra yankee chegou a criar estratégias para burlar sinais detectáveis por satélite, o avião-fantasma foi utilizado na primeira guerra do golfo, ele precipitava sua sombra antes de atravessar o campo eletromagnético. Afora as mudanças tecnológicas, os exercícios de guerra, a indústria militar e o local geográfico; trata-se de um deslocamento da face do inimigo, isto é, de um processo de identificação, de sujeição, subjetivação – o bode expiatório. Se no período da Guerra Fria o comunismo se identificava com o inimigo, o bode expiatório será, após o conflito, o islâmico. A alcunha de terrorista passa para o islâmico, herdada do socialista. O terrorista árabe possui táticas de resistência diferentes. A religião está em primeiro plano, enquanto o socialista crê no Estado forte, totalitário. Se a questão fosse apenas cultural e religiosa, não haveria tanto sangue derramado. A guerra santa é um elemento fundamental, mas não central. São poços de petróleo e um ponto estratégico do globo que se tornam o objetivo. A expansão hegemônica dos EUA pelo Oriente, através do Golfo Pérsico, não só contornam a Heartland como territorializa a democracia americana em torno dos recursos naturais ali existentes. A improdutividade da guerra chegou a extremos, enquanto países ex-colônias, no hemisfério sul do planeta, colidem forças e criam um extenso debate sobre sua produtividade. Fóruns Sociais Mundiais discutem a nova ordem mundial.

A Guerra no Oriente Médio, o 11 de setembro, o Antraz demonstram a fúria da paranóia de Bush. Os países do sul criam o G-20. O BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) torna-se centro nessa periferia global. A superpotência abriu diálogo. A crise fez dos países do sul os mais preparados para enfrentá-la, mas como fazer com os impactos da crise norte-americana, senão estatizar parte do sistema financeiro?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Estado Liberal


O mundo vive uma crise constante e específica, marcada desde o fim da segunda guerra mundial, por dois corredores: capital e Estado. A guerra fria criou uma trincheira aparentemente pouco intransponível. Centrado, muitas vezes, na competição entre duas superpotências (EUA e URSS), o planeta se tornava bipolarizado. 1917 e a Revolução Russa, 1929 e a crise do capitalismo – o século XX começou alicerçando o que se tornou, a partir da década de 60, um edifício de pequenas guerras, movimentos insurgentes, expansão territorial.

Parece que muitos políticos e intelectuais chamavam de bipolaridade o que na verdade era uma tríade que se compunha por primeiro, segundo e terceiro mundo, ou seja, capitalistas, socialistas e não-alinhados. Ao criar estratégias de guerrilhas e experimentar governos com o apoio das metrópoles, os países não-alinhados da Ásia, África e América Latina, passaram a convergir forças ainda pouco calculadas. Do terceiro mundo emergem países que começam a dialogar no sistema-mundo com mais intensidade, criam o G-20. De um lado, o G-20 agrupa uma multiplicidade de países que são muitas vezes herdeiros do socialismo, ruído desde 1989, ou por países africanos e asiáticos, ex-colônias Britânicas e Franceses desde o século XIX; faz parte deste grupo também países latino-americanos que foram colonizados por Portugal e Espanha, desde o século XVI. Por outro, alguns países europeus, Canadá e a superpotência norte-americana compunham o G-7. G-7 e G-20 por algum tempo promoveram um campo de forças que definiu a nova ordem mundial.

Trata-se, sobretudo, de analisar a ‘paranóia de guerra’, que foi um ‘estado patológico e policial’ que desestabilizou a superpotência mundial e o capitalismo como sistema econômico. A guerra como continuação da política tornou os EUA uma comunidade patologicamente afetada, onde as diversas etnias já não conviviam em harmonia e liberdade: negros, latinos, asiáticos e brancos se esmagavam psicologicamente. Não se discute apenas, em termos patológicos, uma paranóia étnica, no plano das relações culturais mais amplas – hábitos, comportamentos, estilos de vida. O racismo se aprofunda por causa da engenharia genética impulsionada pelo motor da hereditariedade. Hábitos e comportamentos étnicos são passados hereditariamente. Lombroso definia um ‘criminosos nato’, com suas características físicas e biológicas determinantes num processo de identificação do inimigo doméstico. O modelo do Reich e de Auschwitz instaurou-se sobre os EUA de modo recriado, xenófobo, generalizado, contra latinos, negros, muçulmanos e asiáticos. Os inimigos externos obedecem a uma lógica mais móvel, se pensarmos no socialista como, por muito tempo, inimigo mais importante, o muçulmano e o terror que propagava. Estava em questão, de um lado, o regime de poder que iria dominar o mundo (socialismo versus capitalismo), de outro, poços de petróleo. A circulação em um espaço cada vez mais amplo é necessária, a ação policial de guerra passa a ser uma função norte-americana: EUA – polícia do mundo. Frentes de batalha nas coréias, no Vietnã, no Oriente Médio, para implantar a democracia capitalista. O dispêndio de reservas monetárias destina-se, em grande parte, para a aquisição de armas, bombas, caças, blindados, helicópteros, sistema de informação, etc. Instituições financeiras mundiais patrocinavam a guerra e a fome no mundo. Pouco produtivo soltar bombas no deserto, se caso houver lucros numa atividade desse tipo, será em longo prazo. Dentre vários fatores, destaca-se, na paranóia de guerra norte-americana, seu caráter patológico (fortemente relacionado com questões genéticas, hereditariedade e racismo para definir os inimigos internos) e seu aspecto policial (ações guerreiras que definiram no século XX o inimigo socialista, árabe como inimigo externo). Patologia e Guerra são dois elementos que circunscrevem uma crise política e cultural nos Estados Unidos. No início do século XXI, hipotecas, estatizações de bancos, desemprego e tantos desequilíbrios econômicos desestruturaram os norte-americanos, literalmente, sob uma cortina de bombas e sangue.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Brasil em Fuga


A impressão que se tem é que nós estamos na década de noventa e vivendo na Europa, Japão ou Estados Unidos. Que depressão! O discurso do capitalista é sempre o mesmo: empréstimos. O capitalismo financeiro idealizado pelas elites do planeta chega a dar graça! Na época em que os empréstimos a juros mais baixos eram restritos aos industriais que destruíam a Terra e quando os funcionários das fábricas recebiam muito pouco, 70 reais por mês, a direita capitalística (para usar um termo de Guattari) do país não se preocupava com o aquecimento global nem com a pobreza mundial. O termo desenvolvimento sustentado surgiu daí. A exploração da mão-de-obra e do meio-ambiente caminhava como uma contradição ao capitalismo financeiro.

De outro modo, estamos no século XXI, momento que o setor informacional predisse e que não viu pela ótica do capitalismo financeiro. Deprimente, mas o fato é que ruiu o capitalismo financeiro, a tecnologia da informação não está mais a serviço de uma globalização injusta e os setores mais reacionários da direita brasileira transformaram-se em oposição, degustando pizzas e comemorando prisões.

A economia brasileira atual é esquizofrênica, mais uma vez é a Deleuze e Guattari que recito: por ser capitalista e, ao mesmo tempo, estatizante. Capitalista e estatizante, esquema bipolar que a torna esquizo. A economia política do atual governo conseguiu a proeza de se organizar tanto pelos mercados financeiros quanto pelo capital produtivo, parte dele estatal. Os salários aumentaram e os créditos às massas apareceram, diferentemente dos créditos restritos às grandes empresas nos períodos de governos precedentes. Os impostos são suficientes para regular os preços e os juros são altos o bastante para controlar a inflação.

O problema que se apresenta agora além de equívoco é dissonante. Estatizar as empresas privadas que não estão suportando a crise do capitalismo financeiro. No Brasil, até bem pouco tempo atrás, as grandes empresas privadas viviam com os investimentos estrangeiros em ações, enquanto as bolsas estavam em alta e o dólar em queda, embora o Banco Central comprasse esses dólares baratos e permitia o investimento em ações para a iniciativa privada. O momento é de regulamentação sóbria sobre as vendas desses dólares, para não haver uma fuga incontida de moeda do país, em momento de alta dos dólares. Qual o melhor negócio a fazer? Com o exemplo das estatizações de bancos norte-americanos pelo FED, será que o governo brasileiro vai estatizar as empresas privadas que estão demitindo funcionários ou deixando-os em férias coletivas? Talvez seja o melhor investimento a fazer, do que financiar empréstimos para países centrais dilacerados pelo capital financeiro nestes últimos anos por uma recessão sem precedentes... O problema é se tornar um país credor com muitos inadimplentes. Os países periféricos estão deixando seus compromissos de lado, como tem tentado Corrêa, presidente do Equador.

A política econômica brasileira tem duas saídas: ou segue o caminho dos empréstimos e retroalimenta o capitalismo financeiro global, correndo os riscos de perder por inadimplência, ou vai em direção a mais estatizações de empresas, que daqui a pouco estão falindo, os sinais são essas demissões que se estimam dois milhões para 2009. Dos cofres para a especulação ou dos cofres para o capital produtivo. Como governamentalidade (governo de si e governo do outro, concepção de Foucault) que se exerce atualmente no Brasil, a saída serão as duas opções, certamente. Um pouco da receita vai para o mercado financeiro, outro tanto destinado para a estatização de empresas interessantes para o país. Lembrei-me da política neoliberal que assolou tanto os cidadãos desse país na década de oitenta e principalmente na década de noventa.

Parece que as colunas de FHC no jornal O Globo foram escritas há 10 anos, numa viagem a Nova York, ouvindo Bob Rubin em uma conferência sobre ‘subprime mortgage’, ex-secretário do Tesouro de Clinton, enquanto em todo o Terceiro Mundo (sic) a situação era de desespero social e falta de perspectiva para uma população empobrecida pelo jogo das forças do mercado com a pressão do ajuste estrutural das instituições financeiras internacionais e pela privatização de empresas estatais brasileiras. Nesse período o globo estava mais que aquecido...